quarta-feira, 21 de março de 2007

Blues é como Deus. Está em sua playlist e você não percebe.

Dentre várias características notáveis dos artistas de blues, a improvisação sobre um tema musical ou canção é, sem dúvida, a mais marcante. Cada bluesman cria e recria livremente todas as suas canções a cada apresentação, a cada performance. É uma parte importante de sua condição como músico de blues transformar cada canção à sua maneira, sendo ela de sua autoria ou não. Talvez por essa razão, ao contrário dos outros gêneros musicais, o blues raramente reconhece o significado do plágio. É natural que um artista se apodere de um trecho de uma canção de um terceiro, desenvolva um novo tema ou arranjo a partir dela e batize da forma que quiser como uma canção sua. Práticas similares, porém em níveis diferentes, podem ser vistas hoje com a música eletrônica. Graças a essa transformação constante em suas canções, surgiram outros gêneros musicais. O rock’n'roll, em seu início (rockabilly), não era mais do que um blues com batida acelerada e influências do country. Da mesma forma, o R&B e o jazz foram criados. Uma transformação incessante que evoca a idéia de que o blues sempre esteve presente e que, na verdade, toda música que ouvimos hoje, desde bossa-nova à N’SYNC, não são subprodutos do blues, e sim apenas outras formas e outros rótulos do blues em si. Além da diversão promovida em suas apresentações, os artistas de blues, em sua maioria, também exerciam uma forma de entretenimento social extremamente similar a dos menestréis medievais. Através de suas canções, contavam histórias que variavam entre temas cotidianos e canções de cunho político. Essa característica também foi herdada diretamente dos bardos africanos (os griots ou jalis). Ignorando o purismo alimentado pelas performances cristalizadas no vinil ou acetato, essa forma de comunicação se transformou em sintonia com o tempo. Novas questões sociais, novas políticas, novos pensamentos, novos problemas e nova música. Se no passado o cantor negro se utilizava de um violão, guitarra ou piano para dar voz aos protestos do povo, hoje ele empunha um microfone e vocifera suas verdades com batidas e efeitos eletrônicos ao fundo. A melancolia dá lugar à revolta e o blues ganha uma série de outros nomes.
(…)
Texto por Nix

2 comentários:

D'Noronha disse...

Muito bom o texto.
Já se disse que 'the blues had a baby and they named rock'n'roll'...
Este seu blog é passagem obrigatória.
Comento pouco mas estou atento e sempre aprendendo ...
Grande abraço, Marcus.

Marcus Mikhail disse...

Valeu D´Noronha. Esse texto é do Nix do blog "Tudo ao Mesmo Tempo Agora" (veja o link nos recomendados). O texto é realmente muito interessante.
Obrigado pelos elogios ao blog...continue prestigiando !!!

Abraço

Marcus Mikhai