quinta-feira, 12 de julho de 2007

ERJA LYYTINEN - ENTREVISTA

Após uma apresentação na Alemanha, a finlandesa Erja Lyytinen encontrou espaço na sua agitada agenda e respondeu com exclusividade diversas perguntas. Ela falou ao Blues Masters sobre sua criação musical, influências, detalhes sobre algumas sessões de gravações nos EUA, a cena de Blues na Europa, entre outros assuntos.


BLUES MASTERS: Erja, conte-nos sobre seu primeiro contato com o Blues, a guitarra e o estilo bottleneck.
ERJA LYYTINEN: Quando eu estava com pouco menos de doze anos, e me lembro de estar assistindo um vídeo onde Ray Charles cantava e tocava "Georgia On My Mind" . A forma com que ele se apresentava causou-me um enorme impacto. Que sentimento, que interpretação! Eu havia, claro, escutado blues antes – sou filha de uma contra-baixista e de um guitarrista e estudei música por toda minha juventude. Toquei bastante rock, pop, música tradicional finlandesa e jazz. Mas algo na performance de Ray foi marcante. Talvez foi pelo “timing” ao realmente sentir o blues, como acontece nos muitos caminhos que tem que abrir na vida para que as coisas aconteçam para você. Estava sentindo falta de algo em meu mundo musical, e lá estava, o blues. Logo depois fui apresentada à música de Koko Taylor e pensei: 'Quem mulher é essa que canta com estilo tão poderoso ?' Ela tinha uma voz forte e eu também estava encontrando o estilo de Chicago que ela e sua banda representavam. O álbum se chamava "Earthshaker" e isso realmente sacudiu o meu mundo! O estilo Bottleneck eu comecei a aprender com Bonnie Raitt. Eu gostei muito de sua música por causa das ótimas composições e arranjos e também por ela tocar de forma tão bela. Eu fazia parte de um trio de guitarristas e nós tocávamos algumas de suas canções também. Aprendi bottleneck também através de Elmore James e Muddy Waters. Comecei a tocar guitarra quando eu estava com 15 anos de idade. Primeiro toquei a guitarra eletro-acústica de meu pai em casa e peguei emprestado alguns songbooks de uma biblioteca. Então, fui para uma escola de música e passei a ter aulas de guitarra. Eu estudei na Suécia, Dinamarca, Finlândia e no Los Angeles Musician’s Institute e penso que a possibilidade de aprender através de outros guitarristas como Scott Henderson e Keith Wyatt foi um grande previlégio para mim.

BM: Quando você formou ou se juntou a sua primeira banda de Blues?
EL: Eu e um guitarrista amigo meu formamos nossa primeira banda de blues por volta de 1996. Nós tocávamos músicas de Koko Taylor, Edgar Winter, John Mayall & Bluesbreakers, etc. Era uma banda básica de quatro integrantes: duas guitarras, baixo e bateria. Era do mesmo jeito que minha banda é formada atualmente.

BM: Nós podemos perceber claras influências de Elmore James, Bonnie Raitt e claro, seu estilo muito próprio em seu ‘mix’ musical. Quem são os outros músicos que te inspiraram a tocar ao longo de sua carreira ?
EL: Há sempre nova música e novo blues para ser descoberto. No início eu estava escutando e estudando guitarristas como Robben Ford, Mike Stern e Pat Metheny e eu ainda gosto da música que fazem. Mas eu creio que era na verdade porque meus professores ensinavam o estilo desses músicos para todos os seus alunos, e porque estavam no topo naquele tempo. Mais tarde eu conheci a música de guitarristas como Brian Setzer, Kenny Burrell, Muddy Waters, Hound Dog Taylor, Scott Henderson e Derek Trucks, que me inspiraram bastante. Em relação as cantoras, eu costumava cantar junto com os discos de Aretha Franklin. Quando eu estava gravando meu segundo álbum “Wildflower”, escutava bastante gravações de Emmylou Harris algo que você talvez possa perceber em algumas canções nesse álbum também.

BM: Mas, eu estava observando seu repertório e pude ver que suas composições predominam, exceto “It Hurts Me Too” do álbum “Dreamland Blues” e algumas outras em sua discografia. Nos shows, você costuma incluir mais ‘covers’ ? E como você faz essa escolha ?
EL: Uma semana depois de começar a tocar guitarra eu já estava compondo minhas próprias músicas. Então, para mim, tem sido sempre natural fazer músicas e combinar toda a música que tenho na cabeça dentro de uma canção.Tenho diversos ‘covers’ em meu repertório e estou sempre aprendendo músicas de outros artistas para saber mais sobre diferentes jeitos de compor e explorar o caminho de como essas canções foram surgindo. Se é um riff de uma base rítmica harmonicamente interessante ou apenas tocou-me através da letra. E claro, eu toco ‘covers’ apenas pelo simples fato de estar tocando boas canções e me divertindo! Mas para mim é essencial escrever minhas próprias composições. As vezes melodias ficam tocando na minha cabeça e tenho que pegar minha guitarra e deixar a música fluir…

BM: Como está sua agenda de shows atualmente ?
EL: Agora o verão está me mantendo ocupada porque muitos festivais acontecem nesse período. Tenho shows agendados por toda a Europa. Na Alemanha, Itália, Polônia, Holanda e EscandináviaSuécia, Noruega e Finlândia.

BM: Em 2005, você se uniu ao projeto Blues Caravan junto a Aynsley Lister e Ian Parker, e como resultado vocês gravaram 2 títulos: um CD e um DVD. Fale mais sobre esse projeto e sobre a possibilidade de gravarem juntos novamente.
EL: Blues Caravan é uma tour que acontece todo ano com 3 diferentes artistas de blues. No ano passado eu escursionei com a Blues Caravan e fizemos mais de 65 apresentações juntos em toda a Europa e EUA. O álbum “Pilgrimage” foi gravado no Mississippi e em Memphis e sinto-me honrada por ter ficado sob as orientações do produtor Jim Gaines, que foi quem também produziu discos de Stevie Ray Vaughan e Albert Collins. O chefe da gravadora Ruf Records, Thomas Ruf, queria 3 jovens europeus na terra onde o blues nasceu para gravar o álbum. O plano era também ir até New Orleans, mas infelizmente, o furacão Katrina atingiu a região pouco antes da viagem. Ir ao Mississippi mexeu comigo como nunca e comecei a pensar diferente a respeito do blues. Eu tinha, claro, conhecido e lido sobre a história; escravidão e os primórdios do blues, mas finalmente parada nas antigas plantações e olhando para o campo branco de algodão, pude quase escutar os 'field hollers' ecoando em minha cabeça. Sinto que isso também mudou meu modo de tocar o blues.
Os estúdios no Mississippi e em Memphis se diferem muito uns dos outros da seguinte forma: Enquanto em Memphis tudo era limpo e muito organizado, em Clarksdale(Mississippi) a música quase sempre acontece como uma ‘jam’ em uma despojada e relaxada atmosfera. Em Memphis tudo é microfonado, no Mississippi nós as vezes usávamos apenas um microfone para gravar todos os intrumentos na sala. Você pode imaginar a diferença de som entre esses dois estilos de gravação! Foi uma grande viagem, cheia de grandes aventuras musicais. No momento, tanto Ian quanto Aynsley estão no mesmo selo que eu, Ruf Records, então nós podemos tocar juntos, mas como o conceito do Blues Caravan 2006 , aquilo foi uma experiência única na vida !
BM: Nós podemos ver no site Blues-Finland que vocês têm uma interessante cena de blues na Finlândia. Como era essa cena no país quando você começou a tocar ? E como é o ‘feedback’ dessa cena fora de seu país ou na Europa ?
EL: Quando começei a tocar, não haviam tantos festivais como hoje na Finlândia. O que tem acontecido na última década é o crescimento da demanda por blues. O Blues não é considerado como uma música popular, mas é popular e vem sobrevivendo e crescendo ano após ano. Eu estava recentemente na Alemanha e na Holanda e esses paises têm um público bastante amplo para o blues. Na Finlândia, temos muitos festivais de jazz, rock, e festivais de blues, mas em alguns desses festivais é possível escutar também diferentes tipos de música além daquela que o nome do festival divulga. Festival de jazz não é puro jazz. Lá podemos ter rock, pop ou blues inclusos no repertório. Fora da Finlândia, parece que os festivais são mais restritos aos estilos. Quando você se apresenta para uma platéia de blues, você recebe o ‘feedback’ no mesmo instante. Quando você toca um solo ou apenas um riff de blues, você consegue no mesmo instante animação e aplausos. É como uma interação de chamado e resposta entre o artista e o público.

BM: Você está trabalhando em novas canções para um novo álbum para ser lançado ainda em 2007 ? Pode nos dizer o nome de alguma composição nova ?
EL: Estou compondo novas músicas o tempo todo. Atualmente tenho uma gravação ao vivo de uma nova canção, “Change Of Season” que pode ser escutada no meu MySpace. Tenho apresentado algum material novo e tenho recebido um ótimo retorno. Meu último álbum “Dreamland Blues”, foi gravado no Mississippi no ano passado com David e Kinney Kimbrough, filhos do lendário Junior Kimbrough. O álbum foi gravado em Novembro de 2006, então o próximo, talvez poderei começar na primavera de 2008. Estar no estúdio é sempre muito divertido e não posso esperar para entrar novamente em estúdio para fazer um novo material.

BM: Nós temos muitas bandas de blues no Brasil! Você conhece algo sobre a cena do blues brasileiro ?
EL: Você sempre me fala das bandas do Brasil. Então eu suponho que tenho que ir até aí para avaliar pessoalmente a demanda de blues do seu país! Infelizmente nossos paises estão muito longe, então não temos visto muitas bandas de blues do Brasil na Escandinávia e vice-versa. Não está na hora de juntarmos as cenas de blues da Finlândia e do Brasil ?

BM: É uma ótima idéia! Espero então, que tenhamos a chance de vê-la em breve, tocando em nosso país e na América do Sul ! Pode imaginar isso ?
EL: Eu gostaria muito de excursionar em seu país. Espero muito que seja possível em um futuro bem próximo.

BM: Erja, muito obrigado por sua atenção. Como fã de blues, estou feliz de realizar uma entrevista com a melhor guitarrista slide da Europa! Então, aqui fica um espaço para você falar o que quiser para seus fãs, especialmente os fãs de blues.
EL: Obrigada pela entrevista e pelos elogios. Para meus fãs e para as pessoas que simplesmente amam a música: o que seria do mundo sem música ? Muito vazio! Então, vamos curtir isso juntos! Sejam bem vindos e visitem-me no MySpace e deixe seu comentário. Desejo tudo de melhor para vocês!

Créditos - Fotos: (1) Dreamland Blues front cover, (2) Kaj Lindqvist, (3) Rolf Weingarten, (4) Esa Pasanen, Wildflower front cover (5) Erja & Ian Parker - Blues Caravan - no credits, sent by a fan.

7 comentários:

Little Thin Jones disse...

Grande Marcus! O Blues Masters é mesmo um blog de altíssimo nível. É a fonte de referência brasileira do blues mundial. Continue com o belo trabalho! Parabéns mesmo!
E que mulher, hein?! Além de bonita, toca blues muito bem! Será que ela toparia me dar umas aulas particulares de bottleneck??

Marcus Mikhail disse...

Valeu Thin !!!

Faço o possível para o blog conter informações interessantes.

Qto as aulas de bottleneck...acho q fica um pouco longe ! rsss

abraços

Anônimo disse...

Mikhail fiquei impressionado com o seu blog,muito bem feito imagens,audio,conteúdo e muita informação a respeito do Blues,coisa que não se encontra tão fácil nas revistas de música atualmente.
Me chamou a atenção,a guitarrista Erja Lyytine,é bom saber que fora dos Estados Unidos atualmente o Blues continua atemporal,dos medalhões aos
contemporâneos.
Parabéns pelo seu blog,e daqui para frente serei um discipúlo dos Bluesmasters,e com certeza a rota do Blues fará parte do meu itinerário.

João Renato

Anônimo disse...

Parabéns pela entrevista !

tudo de bom !

Leonardo

Anônimo disse...

Muito interessante essa guitarrista da Finlândia!
Mais uma vez o blog acerta em cheio no que publica.

Anônimo disse...

tem mais bandas da Finlândia para aparecerem aqui ?

abç

Marcus Mikhail disse...

Anônimo, estou tentando alguns contatos...mas te adinato que tem muita banda interessante por lá !

Obrigado pelo comentário.

Marcus